Em depoimento exclusivo, jovem relata como foi recrutado, planejou assaltos a balsas e viveu na clandestinidade na região ribeirinha.
A figura dos "piratas" ou "ratos d'água" que aterrorizam os rios da Amazônia ganha um rosto e uma narrativa perturbadora. Em entrevista ao Câmera Record, um jovem ex-integrante de uma quadrilha detalhou a sua entrada no mundo do crime ainda menor de idade e a dinâmica dos assaltos a embarcações na região norte do Brasil.O depoimento lança luz sobre como jovens ribeirinhos, com
vidas aparentemente comuns, são seduzidos pela promessa de dinheiro fácil e
aventura, transformando-se em criminosos que desafiam as forças policiais em um
dos terrenos mais difíceis do país.
O Recrutamento e a Ilusão do "Dinheiro Fácil"
O jovem descreve uma vida pregressa normal: "Estudava,
chegava em casa, ajudava no que tinha de ajudar e depois me divertia com meus
amigos". A mudança ocorreu sob a influência de um aliciador identificado
apenas como "Doro".
Segundo o relato, Doro "começava a falar na minha
cabeça que era uma vida boa, que tinha dinheiro, que era tranquila". A
única ressalva feita pelo recrutador era o risco representado pela polícia, mas
a promessa de lucro imediato superava o medo inicial.
Anatomia de um Assalto a Balsa
O entrevistado detalhou o planejamento e execução de um dos
crimes. O grupo, composto por cinco integrantes — ele, Doro,
"Pirento", Elias e Fábio —, avistou uma balsa e decidiu agir
rapidamente. A estratégia focou na vulnerabilidade da tripulação:
- O
Alvo: Identificaram uma mulher na frente da embarcação, planejando
tomá-la como refém inicial para dominar o restante da tripulação.
- O
Arsenal: O grupo utilizou armas de fogo, especificamente uma
espingarda calibre 12 e munições, escondidas previamente na mata.
- A
Divisão de Tarefas: Cada membro tinha uma função específica. Enquanto
uns vigiavam as laterais, Fábio rendeu o comandante para direcionar a
balsa, e Doro manteve os reféns sob controle dentro do camarote.
Fuga e Sobrevivência na Selva
Um dos pontos mais críticos abordados na reportagem é a
dificuldade da polícia em capturar esses grupos. O conhecimento geográfico dos
"piratas" supera, muitas vezes, o aparato policial.
"Quando a polícia batia atrás de nós... nós nem na casa
vinha, com medo. Ficava no mato um dia, dois", conta o jovem. Um agente
policial entrevistado confirma a vantagem tática dos criminosos: "Ali é o
habitat deles. Eles ganham do policial na abordagem porque têm um conhecimento
muito grande dos furos, das trilhas".
Arrependimento e Repercussão
Apesar da gravidade dos atos, o jovem demonstra uma visão
fria sobre o passado. Quando questionado se se arrepende, sua resposta é
direta: "Não".
Ele admite que só parou devido à repercussão extrema que o
caso tomou, envolvendo a morte de parceiros e a prisão de outros. "Se não
tivesse dado tanta repercussão no mundo inteiro, eu acho que tava
[continuando]", confessa. A família, por sua vez, vivia na ignorância das
atividades ilícitas. "Aonde que eu pensava um dia que esse homem ia fazer
uma coisa dessa?", lamenta um familiar.
