MARAJÓ, PA – No Arquipélago do Marajó, o cenário de pobreza extrema e isolamento geográfico criou uma moeda de troca cruel: o combustível. Chamado de "Ouro Negro" pelas autoridades locais, o óleo diesel e a gasolina tornaram-se tão valiosos que famílias ribeirinhas chegam a escolher entre comprar combustível ou comida. Nesse contexto, crianças e adolescentes são empurrados para uma realidade de risco e exploração.Em uma das regiões mais pobres do país, crianças arriscam a vida em embarcações e tornam-se vítimas de exploração sexual em troca de comida e óleo diesel.
Comércio de Risco no Rio Tajapuru
Reportagem especial do Jornal da Record flagrou a
perigosa rotina no Rio Tajapuru. Imagens impressionantes mostram crianças,
algumas com apenas 9 ou 11 anos, a manobrar pequenas canoas para se aproximarem
de grandes embarcações, como balsas e navios que fazem a rota Manaus-Belém.
O objetivo é o comércio improvisado: meninos e meninas
arriscam a vida tentando subir nas embarcações em movimento ou
"pescar" itens atirados pelos tripulantes. Em um dos flagrantes, um
menino tenta cinco vezes até conseguir fisgar um pneu, enquanto luta contra a
correnteza que ameaça alagar o seu pequeno barco. "Eles dão comida...
bolacha, café, açúcar", relata um menino de 11 anos, explicando que em
troca, muitas vezes, pedem camarão ou palmito.
A Face Mais Obscura: Exploração Sexual
No entanto, a troca de mercadorias esconde uma realidade
ainda mais perversa. Investigações apontam que meninas adolescentes sobem nas
balsas não apenas para vender produtos, mas para serem exploradas sexualmente.
O Ministério Público local alerta que, muitas vezes, as próprias famílias,
pressionadas pela necessidade financeira, induzem as crianças a essa prática.
"Tem meninas que vão para a balsa e o retorno do que
elas fizeram lá é um litro de óleo diesel", denuncia um morador local.
Para ele, a culpa não recai apenas sobre as famílias, mas sobre a ausência do
Estado numa região carente e abandonada.
Uma CPI realizada anteriormente concluiu que, entre 2005 e
2009, cerca de 100 mil crianças paraenses sofreram algum tipo de violência ou
exploração sexual. Apesar dos resultados da comissão, o problema persiste,
alimentado pela impunidade e pela dificuldade de obtenção de provas em áreas
isoladas.
O Custo da Sobrevivência
A economia local gira em torno do combustível, essencial
para o transporte e para a geração de energia, muitas vezes limitada a poucas
horas por dia. Enquanto em Belém o diesel custava cerca de R$ 2,97 na época da
reportagem, no Marajó o preço chegava a R$ 4,50, tornando-o um item de luxo.
Para ribeirinhos como Vanderlei, que vive da pesca de
camarão e extração de madeira, o orgulho reside em conseguir manter os filhos
longe dessa exploração, apesar das dificuldades. "Não deixo eles para
isso, não", afirma, ressaltando o esforço para garantir o sustento sem
expor as crianças aos perigos do rio e da exploração.
